O Brasil amanheceu mais uma vez de luto. E, como de costume, a morte veio vestida de farda e justificada pela palavra “operação”. A megaoperação realizada no Rio de Janeiro, que já entra para a história como a mais letal do país, reacende uma velha e incômoda discussão: a polícia brasileira ainda atira antes de saber em quem está atirando. E, por trás de cada disparo, há mais do que um corpo caído, há um modelo de segurança que insiste em confundir violência com solução.
Foram mais de uma centena de mortos. Números que superam até mesmo o trágico Massacre do Carandiru, de 1992. A justificativa oficial é conhecida: combate ao crime organizado, repressão ao tráfico, cumprimento de mandados. Mas é impossível não questionar o custo humano e moral dessas ações. Quando a operação termina, os mortos continuam mortos, e as facções continuam vivas, reorganizadas, rearmadas e recrutando novos soldados para substituir os que caíram.
Especialistas criticam a operação

Não são apenas vozes isoladas que levantam a crítica. Especialistas em segurança pública de todo o Brasil apontaram falhas graves na megaoperação. Entre eles, o renomado Dr. Ricardo Balestreri, que declarou:
“Eu tenho vergonha alheia, eu tenho vergonha alheia de ver e ouvir o governador do Rio de Janeiro dando uma declaração como essa. Acho que qualquer pessoa que entenda minimamente de segurança pública deveria ficar envergonhado. E eu não estou aqui criticando a polícia. Eu acho que a polícia é mandada. A polícia faz o trabalho que foi ordenado pela classe política. É mais uma incursão numa favela onde vive gente vulnerabilizada, causando pânico e desastre na favela, sem um projeto de retomada de território. A operação é um desastre porque morreram quatro policiais. Em qualquer lugar racional e decente do planeta, operações policiais onde morrem policiais são consideradas um fracasso. É um indicativo de mal planejamento, de falta de cuidado. É de uma irresponsabilidade enorme colocar 2.500 policiais que não tem expertise em enfrentamento com grupos altamente armados. Ser policial competente é uma coisa, ter condição de enfrentar em combate armado, grupos criminais é outra. Isso tudo para fazer espetáculo, para ser midiático, para dar a impressão de que o governo está fazendo alguma coisa para combater a criminalidade.”
As palavras do Dr. Balestreri reforçam o que muitos profissionais de segurança pública já denunciam: essa lógica de confronto armado não reduz o crime e aumenta o risco de mortes desnecessárias, inclusive de policiais.
Matar não é política pública
A ideia de que eliminar “bandidos” resolve o problema da criminalidade é, além de simplista, profundamente enganosa. O crime organizado é um sistema, não uma pessoa. Quando um integrante é morto, outro ocupa o lugar. As facções operam com lógica empresarial, têm hierarquia, reposição e expansão. Matar um criminoso é, muitas vezes, apenas abrir uma vaga no mercado do crime.
Enquanto isso, o Estado segue perdendo nas duas frentes: não reduz a violência e alimenta o ciclo da barbárie, em que o jovem pobre e periférico é tanto vítima quanto produto do abandono estatal.
O espelho Amazônico
E o Amazonas não está imune a essa lógica. Em Manaus, vimos mini revoluções urbanas, como os episódios em que traficantes fecharam trechos da Avenida Brasil, em protesto contra a morte de integrantes de facções. Foi o crime organizado demonstrando força política e territorial dando um recado direto: o Estado pode matar, mas não controla.
Esses levantes mostram que o enfrentamento armado não desmonta o poder das facções, apenas o desloca. Hoje, elas se infiltram nas comunidades, ditam regras, impõem toque de recolher e oferecem “segurança” onde o Estado é ausente. No interior do Amazonas, o domínio territorial se estende pelos rios e pelas rotas do tráfico, uma Amazônia paralela, governada por facções que conhecem o território melhor que qualquer força policial.
Truculência não é estratégia

Quando a polícia entra atirando, o Estado sai perdendo. O combate à criminalidade precisa ser técnico, inteligente e fundamentado em investigação, prevenção e inclusão social. O uso da força é necessário, sim — mas não pode ser a única política pública.
É preciso investir em inteligência policial, integração entre as forças, tecnologia de rastreamento financeiro e fortalecimento da educação e da presença do Estado nas comunidades. Segurança pública se faz com dados, com estratégia e com humanidade.
O Amazonas já tem exemplos positivos, como operações de inteligência realizadas em parceria entre as polícias Civil e Federal, além de programas de mediação comunitária. Mas isso ainda é pouco diante do avanço do crime organizado e da ausência de políticas sociais consistentes.
Entre a bala e o abandono
Quando o Estado não chega com escola, chega com fuzil. Quando não há oportunidade, há recrutamento. E quando o poder público não escuta, o tráfico fala. A tragédia do Rio de Janeiro é, portanto, o retrato de um país que ainda não compreendeu que segurança pública não é sinônimo de repressão.
O Brasil precisa escolher entre continuar colecionando cadáveres ou construir um novo modelo de segurança, baseado em inteligência, presença social e respeito à vida. Porque nenhuma guerra se vence matando inimigos que nascem todos os dias.
Refletir sobre o massacre do Rio é refletir sobre o nosso próprio espelho amazônico. Se o Estado continuar atirando antes de entender quem está do outro lado da mira, o futuro da segurança pública será sempre o mesmo: sangue, luto e silêncio.


