Com o aumento da fiscalização nas fronteiras terrestres do Brasil, o número de prisões e apreensões ao longo dos seus 17 mil quilômetros registrou recordes em 2017. Um total de 38.339 prisões foram realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), 6.603 a mais do que no ano anterior — a maioria por tráfico de drogas e contrabando. Mais de 2 mil armas de grosso calibre também foram apreendidas em 2017, volume 25% maior que em 2016. Os principais destino dessas armas e drogas são as facções que atuam no Rio de Janeiro e em São Paulo, revelam investigações policiais locais. Os itens são redistribuídos para as demais regiões do país.

O aumento no volume de armas e drogas atravessando as fronteiras têm sido acompanhado pelo fluxo de mercadorias contrabandeadas. As apreensões desse tipo de produto, realizadas pela Receita Federal, praticamente dobraram nos últimos sete anos. Em 2017, a instituição registrou R$ 2,3 bilhões no valor dos itens apreendidos, quase duas vezes o total de R$ 1,27 bilhão relativo a 2010 — a cifra inclui apreensões nos postos de fronteiras terrestres, além de aeroportos e portos.

Embora ainda haja vastos trechos de divisas desprotegidos, as instituições responsáveis por sua fiscalização têm realizado reforços para reduzir a vulnerabilidade. A Receita Federal criou, no primeiro semestre de 2017, a Coordenação-Geral de Combate ao Contrabando e Descaminho (Corep), que realizou, até o final do ano passado, 3.181 operações de vigilância e repressão, nas quais aplicou multas de R$ 281 milhões. O montante foi 223,5 % superior ao de 2016, quando as penalidades chegaram a R$ 86,8 milhões. Os produtos com maior aumento nas apreensões foram medicamentos (381,47%), calçados (340,02%), videogames (174,00%) e mídias não gravadas (123,48%). Ao todo, 221 milhões de maços de cigarro contrabandeados foram apreendidos, o que representou acréscimo de 11,16% em relação a 2016.

O Rio, destinatário de parte dos materiais traficados, vive uma intervenção federal no setor de Segurança, e autoridades de outros estados já manifestaram preocupação diante de possíveis mudanças nas rotas do crime. Na sexta-feira passada, o Rio registrou apreensão recorde de cocaína: policiais encontraram em contêineres da região portuária quase 1,5 tonelada da droga, avaliada em R$ 250 milhões.

Com efetivo de 30 mil nas fronteiras, o Exército diz ter intensificado o Programa de Proteção Integrada de Fronteiras (PPIF) desde o início do ano passado. Só a Operação Ágata 12, parte da série de ações das Forças Armadas que desde 2011 tentam reprimir o tráfico nas divisas, terminou com 95 prisões e com a apreensão de 17 mil toneladas de drogas e 66 armas.

A PRF afirmou que realiza operações específicas nas divisas, com destaque para a Operação Égide, uma ação que durou 250 dias, prendeu cerca de 12 mil pessoas e encontrou 182 toneladas de maconha, 4,3 de cocaína e crack, 868 armas de fogo e 147.383 munições. A operação foi realizada nas rodovias que cruzam o país até a Bolívia, o Paraguai e a Argentina.

O GLOBO teve acesso a investigações e relatórios da Polícia Federal e da PRF que detalham o funcionamento do tráfico internacional de armas e munições para o Brasil. Em geral, as armas de fogo têm como origem o Paraguai, a Bolívia, a Argentina e o Uruguai. A maioria dos traficantes é de brasileiros que, apoiados por paraguaios, cruzam a fronteira em carros, caminhões, ônibus e também em pequenos barcos.

Pelo menos 95% das armas de fogo adentraram o território nacional pelo Paraná ou pelo Mato Grosso do Sul, tendo como destino São Paulo e Rio de Janeiro. Os demais 5% são transportados em aviões de pequeno porte provenientes da Bolívia ou do Paraguai para o interior de São Paulo e Minas Gerais.

Criminosos montam bases no Paraguai

O armamento abastece dois perfis de grupos criminosos. A maior demanda vem das facções que dominam o tráfico de drogas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Outras destinatárias do tráfico internacional de armas são as quadrilhas dedicadas a crimes violentos, como o roubo a bancos, a caixas eletrônicos e a veículos de transporte de carga e de valores. Esses bandos financiam a entrada no Brasil de verdadeiros arsenais de guerra: metralhadoras de calibres .30 e .50, fuzis, submetralhadoras e pistolas 9mm, .40 e .45. O alto poder de fogo torna-se necessário para garantir superioridade em caso de confronto.

A Polícia Federal já identificou grupos criminosos de São Paulo e Rio que instalaram bases no Paraguai, a fim de receber drogas de Bolívia, Peru e Colômbia, além de gerenciarem o tráfico de armas do país vizinho diretamente.

Apesar dos esforços dos policiais, dos militares e da Receita, ao longo dos 17 mil quilômetros da divisa do Brasil com seus dez vizinhos, existem os chamados “trechos porosos”, por onde entra de tudo: de cigarro a carregamentos de cocaína, de perfumes falsificados a fuzis.

— São regiões extensas onde não há qualquer fiscalização. Há várias maneiras de transpor a fronteira. Há lagos, rios e a própria dissimulação em veículos que passam pelo posto oficial e não são detectados — afirma Luís Antônio Boudens, presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, a Fenapef.

Atualmente, cerca de 1,5 mil policiais federais atuam nas regiões de fronteira, menos de 50% do efetivo de 3 mil homens reivindicado pela categoria. Em ofício encaminhado ao então diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, no dia 2 de fevereiro de 2017, a Fenapef alertava que “é crescente a demanda de grupos de criminosos organizados que se prevalecem da fragilidade da fronteira para atuar no tráfico de drogas e armas ilícitas no Brasil”.

O “Fantástico”, da TV Globo, revelou que aumentou em 275% o total de armas apreendidas nas rodovias federais que cortam o Rio (BR-101, BR-040 e Presidente Dutra): foram recolhidas 62 armas no primeiro semestre de 2017, contra 233 armas no seis meses seguintes.

FONTE: O GLOBO